Mais de 300 trabalhos passaram pelas mãos e pelos olhos dos jurados do Concurso Literário Filhos da Terra. Página por página, prosas e poemas produzidos por estudantes e integrantes da comunidade foram lidos com atenção, seguindo critérios que consideraram aspectos como criatividade, originalidade, domínio da linguagem e força expressiva.
Mais do que eliminar participantes, o trabalho do júri buscou reconhecer as produções que se destacaram em cada categoria. Para essa missão, o concurso reuniu profissionais ligados à educação, à literatura e à comunicação, que contribuíram com experiências e perspectivas diferentes durante o processo de avaliação.
Entre os integrantes do júri está Fabiana Navarro da Silva Gomes, natural de Votuporanga e moradora de Fernandópolis por 15 anos. Graduada em Letras e Pedagogia, com especialização em Didática, ela atuou como coordenadora pedagógica, professora do ensino superior, assessora pedagógica e formadora de docentes. Atualmente, reside em Salvador, cursa Psicologia e especialização em Desenvolvimento Humano, além de trabalhar como consultora educacional.
Em sua avaliação, Fabiana observa que o Filhos da Terra incentiva o pensamento crítico, a sensibilidade artística e a criatividade. Ela também ressalta o envolvimento das escolas, dos professores e dos estudantes, com presença significativa da rede pública entre os classificados. Ao analisar os textos, identificou a necessidade de estimular produções mais autorais, com maior atenção à originalidade diante da influência da linguagem das telas e das ferramentas de inteligência artificial.
Outro jurado, o professor Fernando Saves, considera o Filhos da Terra um símbolo da identidade cultural de Fernandópolis, ao lado de iniciativas tradicionais como a Orquestra Sinfônica e o Presépio Vivo. Em sua trajetória, o concurso assumiu diferentes formatos e passou por períodos de interrupção e retomada, sem perder sua importância para a cultura local.
Para o educador, a participação das escolas mostra o potencial da educação quando os alunos encontram espaço para organizar ideias, desenvolver a sensibilidade e transformar experiências em literatura. Sua análise também aponta desafios percebidos nos trabalhos, como o excesso de referências e a pouca originalidade em algumas produções. O olhar do júri, nesse sentido, não se limita à escolha dos classificados: também oferece elementos para o fortalecimento das próximas edições e do trabalho desenvolvido em sala de aula.
“Passei minha primeira infância em Macedônia, mas, em seguida, acolhido por minha tia, morei em Fernandópolis. Dos meus 29 anos, 13 foram vividos pelas ruas dessa cidade. Participar desse projeto é, para mim, revisitar uma história que é minha e uma cidade que será, para sempre, o meu lar”, se emociona Saves.
A jornalista, pedagoga, professora, escritora e dramaturga Daniela Ortolan destaca o concurso como incentivo à leitura, à escrita e à descoberta de talentos. Para ela, a diversidade de olhares, a sensibilidade e a originalidade presentes nos trabalhos revelam como crianças, jovens e adultos podem atuar como produtores de cultura.
Daniela também chama a atenção para o percurso que antecede a premiação. A criação, a revisão e a superação fazem parte de uma experiência que permanece com os participantes, independentemente da classificação. A tradicional corujinha simboliza o reconhecimento público desse esforço, mas o principal resultado está no aprendizado construído ao longo do processo.
Na visão da jurada, as redes sociais não precisam ser tratadas como adversárias da literatura. O desafio é criar experiências de leitura e escrita mais profundas e ampliar ações como oficinas, encontros com escritores, publicações e atividades em bibliotecas, praças, escolas e outros espaços da cidade. Assim, a literatura pode circular e se aproximar ainda mais da população.
Os três olhares se encontram em um ponto: o Filhos da Terra vai além da disputa por uma colocação. O concurso abre espaço para que histórias, memórias e percepções da comunidade ganhem forma em versos e narrativas. Aos jurados coube a tarefa cuidadosa de percorrer cada página e reconhecer, entre tantos trabalhos, aqueles que melhor traduziram essa proposta.
Os classificados seguem agora para a etapa de premiação final, marcada para as noites de 29 de outubro e 5 de novembro, no Teatro Municipal de Fernandópolis. Será o momento de celebrar os destaques desta edição e, ao mesmo tempo, reconhecer todos os participantes que ajudaram a escrever mais um capítulo do Filhos da Terra.