Saúde Mental

Quando dar conta de tudo custa a sua saúde mental.

Entre trabalho, família e responsabilidades invisíveis, a sobrecarga feminina convida a uma reflexão: quem cuida de quem está sempre cuidando?


por Canal Dez
24/09/2026 às 15:07 Fernandópolis
Quando dar conta de tudo custa a sua saúde mental.

Por Fernanda Canassa | Terapeuta

Antes mesmo de o dia começar, a lista já está pronta na cabeça: responder às mensagens, cumprir os compromissos profissionais, organizar a casa, lembrar da consulta, acompanhar as necessidades dos filhos e pensar no que falta para o jantar. Ao chegar à noite, ainda pode aparecer a sensação de que alguma coisa ficou por fazer.

Para muitas mulheres, essa rotina vem acompanhada de uma cobrança silenciosa: conseguir administrar tudo e continuar disponível para todos. Nesse cenário, descansar pode provocar culpa, e pedir ajuda pode parecer uma demonstração de incapacidade.

Mas quanto custa sustentar essa expectativa todos os dias?

Parte desse peso está nas tarefas que quase ninguém percebe. Marcar uma consulta é uma ação visível. Perceber que ela é necessária, encontrar um horário, organizar o transporte e lembrar do compromisso também exigem tempo e atenção. É esse trabalho contínuo de antecipar, planejar e acompanhar as necessidades da rotina que costuma ser chamado de carga mental.

A desigualdade na divisão do cuidado aparece nos dados. Segundo o IBGE, em 2022, as mulheres dedicavam, em média, 21,3 horas semanais aos afazeres domésticos e ao cuidado de pessoas, enquanto os homens dedicavam 11,7 horas. Esses números ajudam a dimensionar a diferença de responsabilidades, embora não traduzam toda a experiência de permanecer mentalmente responsável pelo funcionamento da casa.

Também existem cobranças sobre como cada papel deve ser desempenhado. Ser uma profissional competente, uma mãe presente, uma companheira atenciosa e ainda encontrar disposição para cuidar da aparência e manter a vida social. Quando todas essas expectativas se acumulam, o tempo para si pode se tornar a primeira coisa a desaparecer da agenda.

O estresse excessivo pode vir acompanhado de irritabilidade, dificuldade de concentração, alterações no sono e desconfortos físicos. Esses sinais merecem atenção, principalmente quando persistem e prejudicam o cotidiano. Eles podem ter diferentes causas e precisam ser avaliados individualmente, sem transformar toda experiência de cansaço em um diagnóstico.

Por isso, conversar sobre saúde mental também exige olhar para as condições em que a vida acontece. Recomendar que uma mulher “se organize melhor” pode acrescentar mais uma cobrança a uma rotina que já ultrapassou seus limites. Uma agenda bem planejada continua tendo apenas 24 horas.

O cuidado passa por uma divisão concreta de responsabilidades. Em casa, isso significa que outras pessoas assumam tarefas do início ao fim, incluindo o planejamento, sem depender de instruções constantes. No trabalho, envolve demandas possíveis, respeito aos horários de descanso e condições adequadas para exercer as funções. A Organização Mundial da Saúde reconhece a carga excessiva de trabalho e o baixo controle sobre as atividades como riscos à saúde mental.

Há também espaço para rever expectativas, conversar sobre limites e reconhecer o que precisa mudar. Quando o sofrimento persiste, buscar apoio de um profissional de saúde pode ajudar a compreender o que está acontecendo e identificar o cuidado necessário.

Quem costuma cuidar de todos também precisa encontrar relações nas quais possa dizer que está cansada, expressar necessidades e receber apoio. Isso exige disponibilidade de quem está ao redor para escutar e participar.

Talvez uma pergunta importante para começar essa conversa seja: o que, na sua rotina, precisa ser compartilhado para que você também tenha espaço para viver?

Fernanda Canassa | Terapeuta
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