Fernanda Canassa Terapeuta
Você já reparou que, em diferentes relacionamentos, muitas vezes esperamos ou reagimos de formas parecidas? Como se determinados padrões continuassem se repetindo, mesmo quando as pessoas ao nosso lado são completamente diferentes?
Isso pode acontecer porque grande parte da maneira como nos relacionamos na vida adulta começa a ser construída muito antes dos nossos relacionamentos amorosos. Nossos primeiros vínculos participam da construção das nossas referências sobre amor, cuidado, segurança, pertencimento e troca.
Isso não significa que nossa infância determine nossos relacionamentos, mas compreender essa história pode nos ajudar a perceber padrões que repetimos sem perceber.
Quando somos crianças, aprendemos sobre os vínculos através das experiências que vivemos. A forma como fomos cuidados, ouvidos, acolhidos e percebidos contribui para a maneira como passamos a entender os relacionamentos.
Se aprendemos que precisávamos fazer muito para receber atenção, por exemplo, podemos levar essa lógica para a vida adulta e sentir que precisamos nos esforçar constantemente para sermos amados. Se aprendemos que expressar necessidades gerava conflitos, podemos crescer tendo dificuldade para pedir, comunicar o que sentimos ou demonstrar vulnerabilidade.
Por isso, às vezes, mudam as pessoas, mas determinadas experiências emocionais continuam se repetindo.
Compreender a influência dos pais na nossa vida não significa culpá-los por tudo o que vivemos. Nossos pais também têm suas próprias histórias, limitações e recursos emocionais.
Isso não apaga aquilo que nos machucou, mas nos permite olhar para a nossa história com mais consciência.
Também podemos reconhecer que nossos pais fazem parte da nossa origem e que, através deles, a vida chegou até nós. Receber essa realidade não significa aceitar ou repetir tudo aquilo que aconteceu.
Podemos honrar a nossa história e, ao mesmo tempo, escolher o que queremos levar adiante.
Dentro das relações familiares, cada pessoa precisa assumir o seu próprio lugar e a sua própria responsabilidade.
Às vezes, filhos acabam tentando cuidar emocionalmente dos pais, resolver seus problemas ou compensar aquilo que eles não conseguiram viver. Mas não precisamos interferir no caminho dos nossos pais para construir o nosso.
Pais são pais. Filhos são filhos.
Respeitar essa diferença também pode trazer mais liberdade para cada um viver a própria história.
Os relacionamentos envolvem trocas, mas a relação entre pais e filhos possui uma dinâmica diferente. Os pais dão e os filhos recebem. Recebemos a vida e aquilo que foi possível ser oferecido.
Não precisamos passar a vida tentando retribuir ou compensar tudo o que recebemos. Podemos reconhecer o que veio, acolher aquilo que fez sentido e escolher o que queremos continuar.
Também podemos olhar para aquilo que nos machucou e decidir que determinados padrões não seguirão adiante.
Pertencer à nossa família não significa repetir a nossa família.
Talvez algumas perguntas possam ajudar nesse processo:
O que eu recebi e quero continuar?
O que fez parte da minha história, mas eu escolho transformar?
O que termina em mim?
O processo terapêutico pode ser um espaço para olhar para essas questões com mais consciência. Não para mudar os nossos pais ou apagar o passado, mas para compreender a nossa história, reconhecer padrões e construir novas formas de nos relacionarmos.
A nossa história influencia quem somos, mas não precisa determinar tudo aquilo que ainda podemos construir.
Fernanda Canassa
Terapeuta