As cadelas Malina, de cinco anos, e Kiara, de um ano e meio, são as grandes aliadas do Corpo de Bombeiros de São Paulo nas buscas por sobreviventes após os dois fortes terremotos que atingiram a Venezuela. Enviadas pelo governo paulista, elas integram uma comitiva que conta também com bombeiros, médicos e técnicos da Defesa Civil. No cenário internacional, a mobilização é gigantesca: mais de 140 cães de 21 paÃses participam da força-tarefa. O Brasil marca presença com o apoio de São Paulo, Minas Gerais e Paraná, que enviaram dois animais cada para ajudar a localizar milhares de pessoas que continuam desaparecidas em meio aos escombros, em uma tragédia que já soma mais de 1.700 mortes confirmadas pelas autoridades locais.
A experiência da dupla de quatro patas é equilibrada. Malina é uma veterana em missões internacionais, tendo atuado no terremoto da Turquia em 2023 e, mais recentemente, no resgate das enchentes que assolaram Porto Alegre. Já a jovem Kiara está na fase final de sua formação. A capitã do Corpo de Bombeiros, Karoline Burunsizian, explica que a escolha de raças como o Pastor Belga Malinois se deve à combinação ideal de agilidade, força e resistência para andar sobre estruturas destruÃdas. O canil paulista conta hoje com quatro cães prontos para o trabalho e três em treinamento, com uma leve preferência pelas fêmeas devido ao foco mais apurado demonstrado em campo.
O treinamento desses animais começa cedo, logo aos 45 dias de vida, e baseia-se em um sistema de recompensas. Por meio de brincadeiras de esconde-esconde e do uso de aromas sintéticos que imitam o cheiro humano, os filhotes aprendem que, ao apontarem o focinho no local correto, ganham seu brinquedo favorito. Nos primeiros seis meses, os treinadores promovem a chamada janela de socialização, inserindo os cães em situações extremas — como andar de helicóptero, jet ski e caminhar sobre terrenos instáveis — para que eles não se assustem durante uma tragédia real.
Até hoje, nenhuma tecnologia inventada pelo homem consegue ser mais precisa e eficiente para localizar vÃtimas do que o olfato de um cão treinado, capaz de detectar até mesmo pequenos bolsões de ar sob toneladas de concreto. O sucesso das buscas depende também da conexão profunda entre o animal e o seu bombeiro condutor, que passa anos decifrando o comportamento do bicho. Essa parceria é tão forte que ultrapassa o perÃodo de serviço: quando completam oito anos de idade e se aposentam, os cães costumam ser adotados definitivamente pelos próprios companheiros de farda.