Cultura

Do entalhe na madeira, nascem os troféus dos “Filhos da Terra”

Conheça o artista de Fernandópolis que transforma restos de madeira em arte


por Canal Dez
20/10/2026 às 15:29 Fernandópolis
Do entalhe na madeira, nascem os troféus dos “Filhos da Terra”
Durante dois meses consecutivos, entre o silêncio da noite e o pulsar do dia, as mãos do artista plástico Wagner Aparecido Lopes, de 43 anos, trabalharam sem descanso. O desafio era nobre: esculpir e dar forma aos 45 troféus que serão entregues nos dias 29 e 30 aos participantes do tradicional Concurso Filhos da Terra.

Feitas a partir de madeiras legalizadas — como o Cambará Rosa, o Cambará e o Cedro reciclado —, as peças se transformam em corujas, o símbolo do concurso que mundialmente representa a sabedoria e o conhecimento. 

Para chegar ao resultado que o público verá no palco, Wagner moldou e descartou vários exemplares. Afinal, a verdadeira escultura renega a produção em série. “Nunca uma fica igual à outra; cada exemplar é único”, explica o artista com o orgulho de quem cria exclusividades.

Wagner conquistou a oportunidade após participar de uma seletiva com outros talentos locais. Apaixonado pelas artes, ele é daqueles criativos que não se limitam: já se aventurou pelo teatro, pela literatura, pela pintura e pela escultura. Sua curiosidade natural o impulsiona a ousar constantemente, testando novas cores, texturas e materiais.

Herança moldada no afeto

Essa paixão não nasceu por acaso; está cravada em seu DNA. O que hoje brilha como um hobby — já que Wagner divide seu tempo com o cargo de funcionário público municipal — começou na infância, em um sítio em Santa Albertina. 

Foi lá que seu pai, o conhecido “Seu Aparecido” (o "Tim"), sustentava a esposa e os três filhos transformando pesados blocos de madeira em retratos vivos do cotidiano rural.
Desde os três anos de idade, Wagner guarda na memória o cheiro da madeira cortada e as imagens de boiadas, canaviais, engenhos e pássaros que ganhavam vida pelas mãos do pai. 

Essas obras cruzaram fronteiras e hoje decoram lares no eixo Campinas–São Paulo, para onde o velho Tim viajava para vender sua arte. Mais tarde, quando viver exclusivamente de artesanato se tornou um desafio complexo, o patriarca migrou para a marcenaria tradicional, fabricando camas, mesas e armários.

Porém, a semente já fora plantada. Com um formão nas mãos e os olhos fixos nos movimentos do pai, o menino Wagner passou a copiar aqueles gestos precisos. Criou suas primeiras peças, pintou telas e experimentou volumes. Chegou a tirar seu sustento da arte por um período, antes de ingressar no serviço público e escolher manter a escultura como um refúgio de liberdade e paixão.

Voz da cultura

Falar do "Filhos da Terra" mexe profundamente com os sentimentos de Wagner. É uma história que se mistura com a sua própria biografia. “Vi minha família sobreviver com a arte genuinamente local, com os materiais, cenários e o talento que possuímos”, emociona-se. 

O vínculo com o evento é antigo: o artista já participou de edições anteriores escrevendo contos e poesias, e reforça que o festival é um combustível para quem deseja criar.
Esta também não é a primeira vez que ele assina a premiação. Em uma edição passada, Wagner confeccionou os troféus e guardou uma lembrança eterna desse trabalho. Durante um churrasco, a filha do anfitrião fez questão de buscar, cheia de orgulho, a escultura de coruja que havia ganhado ao vencer o concurso. 

Para Wagner, ver a felicidade nos olhos daquela jovem foi a certeza de que sua arte cumpre um papel maior: o de inspirar novos começos nas casas de tantas famílias.

Sobre o amanhã, o escultor do serviço público avisa que não tem pressa. Ele só aceita encomendas quando a inspiração bate à porta e o desejo artístico fala mais alto que o comercial. Quanto às corujas deste ano? Essas permanecem como um segredo esculpido sob medida, exclusivas e eternas, apenas para os nossos "Filhos da Terra".