Religião

Primeiro ano do pontificado de Leão XIV

Pe. Edvagner Tomaz da Cruz Professor Doutor em Teologia, Reitor do Seminário Diocesano de Jales e Pároco da Paróquia São Luiz Gonzaga, de Fernandópolis-SP


por Canal Dez
08/05/2026 às 17:12 Fernandópolis
Primeiro ano do pontificado de Leão XIV

Pe. Edvagner Tomaz da Cruz

O presente artigo propõe-se a traçar, de modo sintético, um panorama do primeiro ano do pontificado do Papa Leão XIV. Trata-se de um período marcado pela continuidade e pelo aprofundamento das reformas iniciadas pelo Papa Francisco, especialmente a consolidação de uma eclesiologia de caráter sinodal. Nesse horizonte, emerge a figura de um pastor atento aos sinais dos tempos, comprometido com a promoção da paz, com a defesa dos mais vulneráveis e com a prática do diálogo.

O então cardeal Robert Francis Prevost, eleito em 8 de maio de 2025 como Sucessor de Pedro, tornou-se o primeiro papa norte-americano. Sua atuação como Prior Geral da Ordem de Santo Agostinho por 12 anos e sua experiência missionária de cerca de três décadas no Peru conferem-lhe uma visão eclesial ampla e sensível às realidades latino-americanas. Eleito aos 70 anos, reúne vigor pastoral e sólida formação, além de reconhecida capacidade de diálogo intercultural e no cenário internacional.

Desde o início de seu pontificado, o Papa Leão XIV manifesta explícita continuidade com o magistério de Papa Francisco, assumindo, com discernimento e coragem, elementos centrais de seu projeto eclesial. A escolha do nome remete a Leão XIII, cujo pontificado inaugurou, de modo sistemático, a Doutrina Social da Igreja, especialmente com a encíclica Rerum Novarum. Tal referência não é meramente simbólica: indica uma clara orientação em favor da justiça social, da dignidade do trabalho e da atenção preferencial aos pobres. Nesse contexto, sua primeira encíclica, Dilexi Te (“Eu te amei”), reafirma o primado do amor cristológico como fundamento da ação eclesial, sobretudo no cuidado com os mais necessitados.

Em seu discurso inaugural, o Papa delineia com clareza sua visão de Igreja: “Queremos ser uma Igreja sinodal, uma Igreja que caminha (...) sobretudo próxima dos que sofrem”. Tal afirmação explicita uma compreensão de Igreja como Povo de Deus em caminho, em consonância com a eclesiologia do Concílio Vaticano II. A sinodalidade, nesse sentido, não se reduz a um método organizativo, mas constitui uma dimensão teológica essencial, que implica corresponsabilidade, escuta e participação de todos os fiéis. Ao convocar os cardeais e toda a Igreja a aprofundar esse caminho, o Papa reafirma a fase de recepção do Sínodo sobre a Sinodalidade como um tempo privilegiado de discernimento e implementação nas Igrejas locais.

No campo das relações internacionais e da ética global, o Papa Leão XIV tem se destacado por seu insistente apelo à paz. Em um contexto mundial marcado por conflitos e polarizações, sua voz ressoa como convite à reconciliação, ao desarmamento e à conversão dos corações. Logo em sua primeira mensagem, afirmou: “uma paz desarmada e uma paz que desarma”. Tal perspectiva não apenas retoma a tradição evangélica, mas também se insere na continuidade do magistério recente da Igreja. Sua postura, no

entanto, não deixou de gerar tensões no cenário político, especialmente em relação ao então presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, evidenciando os desafios inerentes à presença profética da Igreja no mundo contemporâneo.

Ainda assim, o Papa mantém firme sua orientação pastoral, evitando confrontos estéreis e privilegiando o testemunho coerente. Ao convocar um dia mundial de oração pela paz, reafirma a centralidade da dimensão espiritual como caminho autêntico de transformação histórica.

Ao término de seu primeiro ano de pontificado, é possível reconhecer sinais consistentes de um governo eclesial enraizado na tradição e aberto aos desafios do presente. Entre gestos concretos, palavras densas de significado e iniciativas pastorais, delineia-se um caminho que convida a Igreja a renovar sua missão no mundo. Sob a condução do Papa Leão XIV, a barca de Pedro segue seu percurso histórico, sustentada pela esperança, pela fé e pelo compromisso com o Reino de Deus.


Fernandópolis, 02 de maio de 2026.